Combinando com os russos – Dia 9: O Diário da Quarentena

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Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 9
Querido Diário,
Hoje tirei a barba. Depois de muito anos, já nem lembrava mais como era minha cara. Vi que isso é algo que pode ajudar a evitar contaminação e, paranóico que sou, não pensei duas vezes. Minha barba nunca foi muito grande. O pouco que deixei crescer mais do que devia já foi suficiente para me deixar parecido com um Taleban. Coisas da ascendência árabe…
Quando se está de barba, seu rosto assume uma nova personalidade. Só o rosto, pois você continua sendo o mesmo. Quem é gente boa, é gente boa com ou sem barba. Quem é canalha, é canalha com ou sem navalha. Logo, a barba não define nem o homem, nem a mulher. Tá, você entendeu o que eu quis dizer.
Enquanto a lâmina passava pelo rosto e começava a revelar a pele, fiquei pensando em quem iria encontrar. Meu otimismo me fazia crer em um George Clooney versão brasileira, Herbert Richards. Se você riu quando eu escrevi Herbert Richards, lembre-se: é bastante provável que você faça parte do grupo de risco e precisa redobrar a atenção nestes dias, ok?
Lâmina passando, rosto aparecendo e quem apareceu não foi o George Clooney, mas alguém também bastante conhecido mundialmente: o velho da caixa da Aveia Quaker.
Pois é. Noto que o tempo fez questão de lembrar-me que ele passa. E enquanto eu fingia não ver, usando a barba como escudo, ele tratou de ir deixando suas marcas indeléveis no meu rosto. Por mais que eu relutasse, o tempo sabia que era uma questão de tempo para a oportunidade de jogar isso na minha cara, com o perdão de todos os trocadilhos que consegui incluir nessa última frase (nota mental: passando a quarentena, pesquisar sobre ‘toxina botulínica’).
Quando falamos em tempo, vida e suas marcas, é inevitável questionarmos aquilo que se convencionou chamar de beleza, da busca do corpo e da imagem perfeita. Do ‘parecer ser’, um dos imperativos que tanto angustiou as pessoas nas redes sociais, na era a.C., ou seja, antes do Corona. Naquela época, não importava o que se era, mas sim parecer: parecer rico, parecer belo, parecer famoso, parecer feliz, parecer gostoso, parecer espiritualizado e o pior deles, tentar parecer não estar nem aí com isso tudo, fazendo um esforço tremendo para parecer que tudo era normal. O primeiro que fraturou-se nessa ordem momentânea, foi o parecer rico. De repente, o sucesso e a despreocupação que muitos demonstravam no Instagram cedeu a vez para a angústia de se ter ou não emprego ou empresa daqui a alguns meses. Em alguns casos, dias.
Ontem à noite, ao entrar, percebi uma avalanche de lives, com basicamente todo mundo aconselhando todo mundo a algo que nem se sabe ainda o que é, e disfarçando a real necessidade de todos hoje, em dias de confinamento: conversar, ver e ouvir o outro, dividir angústias, compartilhar vulnerabilidades, deixar ser. Muitos aconselhando a ações que preveem, do lado de lá do balcão, encontrar alguém calmo, tranquilo, sem preocupações, ou seja… resumindo, alguém que está em férias e optou por ficar em casa. Parei de assistir quando vi um consultor orientando lojistas que é hora de vender TVs maiores, sistemas de som, home-theater, pois as pessoas estão mais tempo em casa e blá-blá-blá… tipo Copa do Mundo, sabe? Só que sem futebol. E se você não comprou, também sem cerveja e pipoca. E já que esbarramos em futebol, como bem filosofou Garrincha um dia: falta apenas combinar com os russos. Acertar com o lado de lá, que também enfrenta toda sorte de preocupação, angústia, conflitos e outros ‘serás quê” e pensa, assim como você, no quanto de autonomia possui até que a coisa toda volte a uma normalidade mais normal possível, se é que ela um dia existiu. Será que vivemos os espasmos finais de uma era de superficialidades, que intencionalmente fez questão de confundir felicidade com alegria? E com isso, revelamos toda a nossa dualidade, todos os nossos paradoxos? Sei lá, Diário. O que sabemos, por hora, é que é preciso ajudar com o que se tem, colaborar, parar com o pensamento binário, de encontrar culpados enquanto o barco afunda. Preocupar-se em achar o responsável pela água que entra no barco enquanto ela entra, nos torna, invariavelmente, co-responsáveis.
A parafusadeira? Vai bem, obrigado. Hoje construímos um Dom Quixote. Reviramos as caixas onde guardamos as sobras de pequenas manutenções e, entre ferragens, fios, peças, parafusos e lembranças, construímos nossa versão MadMax do Cavaleiro da Triste Figura. Afinal, manter a mente ocupada é questão de primeira ordem. Nesse movimento, ou melhor, nessa paralisia, conseguimos revelar e desenvolver algum talento.
Aproveitei para tentar fazer ao menos uma pequena parte de todas os 1347 tutoriais de pratos que salvei nos últimos anos. Selecionei algumas receitas e, antes de restrições mais duras, fui ao mercado em busca dos ingredientes.
Máscara, roupa cobrindo o corpo todo, mesmo no calor do meio do dia e… bora pro front! Chegando lá, confesso que ainda me senti um ET. Para meu conforto, encontrei outros ETs, bem poucos, também se precavendo e, evitando a proximidade, devidamente orientada no local pelo mercado e seus funcionários. Ao passar pelo caixa, a moça ainda incrédula, deu um risinho irônico e soltou:
– Acho que é exagero tudo isso. No mês passado teve carnaval e todo mundo se fingiu de morto…
A resposta saiu como um chicote, à la Beto Carreiro:
– Concordo contigo. A questão agora é que, se não evitarmos a disseminação do vírus, nem precisaremos fingir mais…
Rimos juntos. Mas sabemos que foi de nervoso.
Da trincheira, seguimos. Até amanhã, querido diário.”

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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