Você não é todo mundo – Dia 8: O Diário da Quarentena

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Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 8
Querido Diário,
Cá estamos, no 8º dia, ou se preferir, no 2º domingo de nossa quarentena. E como domingo é dia de almoço especial, também demos nossos pulos por aqui e tratamos de fazer um churrasco. Sabe aqueles pacotes que viram fósseis congelados dentro do freezer? Você nem sabe mais o que é, apenaz deduz que seja carne ou frango pela cor. Então, esse foi nosso churrasco. Não que não houvesse outras opções, mas como não sabemos quanto tempo isso vai durar, optamos por eliminar aquilo que já estava há mais tempo. Assamos e comemos sem saber até agora do que se tratava: um tiranossauro rex ou algo mais recente, um mamute talvez. Mas deu pro gasto.
Depois da siesta, que já virou hábito por aqui, treinamos nossa musculação improvisada. Executei três séries de levantamento de gato para os biceps, outras três de supino com o sofá e mais três de agachamento com filha nas costas.
Também corremos meia hora na nossa pista particular, aquela que passa pela sala, garagem, corredor externo, quintal, cozinha e sala novamente. Minha filha empolgou-se com a ideia e riscou com giz as faixas da pista, não poupando nenhum dos ambientes. A performance vai se aperfeiçoando: estou fazendo 4 voltas em 1 minuto, o que dá aproximadamente 100 metros. Como corro 30 minutos, são aproximadamente 120 voltas, ou se preferir, 3 quilômetros. 3 quilômetros. Três. Dentro de casa. É. Só espero que não deixe uma trilha desgastada no carpete de madeira da sala, pois vai demorar para trocar isso. Enfim. E assim, a casa segue se transformando.
Hoje o país ultrapassou os 1500 infectados, ao menos pelo número oficial declarado pelas autoridades. Os óbitos aumentaram de 18 para 25. E além do vírus, a grande dúvida que paira no ar é: por quê ainda tem tanta gente que se acha imune? Principalmente idosos, um dos principais grupos de risco. Muitos velhinhos ainda se expondo por aí, ressuscitando os conflitos de geração dentro de casa com os filhos, só que ao contrário. Vão ser baladeiros assim lá na China, meu! Não, na China, melhor ainda não. Soube que andaram tendo casos reincidentes lá, rescaldo da transmissão doméstica. Mas que os velhinhos aqui estão muito abusados, isso estão. É feira, supermercado, praça, banco, rua, padaria… Com minha mãe e meus sogros, fizemos uma operação de guerra, pois é isso que estamos vivendo: uma guerra, com todas as privações possíveis, contra um inimigo difícil de mensurar e de ver. Tempos duros pedem medidas drásticas.
Para me certificar que não teríamos problema, fui hoje rapidinho na casa de minha mãe. Vesti minha roupa de apicultor, peguei o carro e cortei a cidade. Chegando lá já fui avisando das medidas duras que teríamos que empreender, para o bem e proteção dela. Ela reclamou, chorou, fez drama, jogou-se no chão, ficou esperneando, disse que não a amávamos, que iria fugir de casa pois ali ela não era compreendida, enfim, aquela chantagem emocional de uma adolescente no auge dos seus 81 anos. Sem chance. Fiquei irredutível e devolvi na lata aquilo que ouvi a vida inteira: no dia em que você for filha, você entenderá que estou fazendo isso para o seu bem e porque amo você. “Mas todo mundo está saindo!”, ainda retrucou, ao que eu truquei: “Mas você não é todo mundo!”…
Wow!!! Sempre quis dizer isso! Percebendo que não iria ganhar a parada, saiu pisando duro e gritando “Porquê eu? Porquê eu?”. Entrou no quarto, bateu a porta e ligou o som no último volume, só pra provocar.
Foi nessa hora que peguei todas as cópias das chaves da sua casa e bati na porta para me despedir. Porém, com o som alto, não ouviu ou fingiu que não ouviu. “Na hora que estiver com fome, vai sair”, pensei comigo. Tranquei a casa por fora e voltei para minha casa. Quinze minutos depois, o telefone tocou. Do outro lado, aquela voz desenxabida dizendo “Tô com fome”. Como somos bastante estratégicos, já deixei tudo no jeito: Liguei para o disk-pizza e pedi para entregar uma meia muçarela, meia calabresa, passando por debaixo da porta. E assim será, até eu comprar a prensa para achatar hamburgueres, com pão e tudo. Comida de adolescente, nem vai sofrer tanto assim.
Percebo, pelo tom das conversas nas redes sociais, que um dos grandes desafios hoje é recuperar a profundidade nas nossas relações. No mundo acelerado que vivemos até pouco antes da quarentena, a meta era viver superficialmente, ser relevante a qualquer custo, atribuir-se uma importância muitas vezes inflacionada e, o pior disso tudo, acreditar nisso. O jogo mudou, querido diário. E como já conversamos em outras épocas, vale entender que quando na tela aparece “game over”, compete a nós apertar o “play again”. O jogo mudou e se alguém disser que tem certeza do que está acontecendo – e tem muitos fazendo isso na internet, tentando vender toda sorte de produto ou serviço – é porque ainda não entendeu nada. Por hora cabe-nos reconhecer nossa vulnerabilidade, atender as recomendações que já se sustentam nas realidades concretas e dolorosas de quem já passou ou está passando pela fase crítica do problema, esperar, buscar manter algum tipo de atividade física – mínima que seja e ajustada ao espaço que se tem – e, principalmente, ocupar a mente. Ficar nesse imperativo de sucesso, recomendando ações e modelos que fizeram parte do mundo até o início do mês para atuar num mundo que ainda não sabemos como é, é risco grande de dar um tiro no pé. Como na live que assisti há alguns dias, onde quem fazia, depois de muito estardalhaço nas redes sociais vendendo uma consultoria on-line sobre o que fazer em tempos de crise, ficou desconcertado ao perceber que, a cada pergunta que lhe era feita, ele não sabia o que responder. Todas as respostas tinham ficado do lado de lá da pandemia.

O que posso presumir – com grande chance de errar – é que o que nos trouxe até aqui não nos levará adiante, logo utilizar esse tempo de ‘descanso’ compulsório para se autoconhecer e se conectar, mesmo que à distância, com que nos é caro, é o melhor a fazer. O jogo mudou e, hoje, as peças estão todas guardadas numa caixa. Resta-nos investir em pequenas atitudes, cotidianas, consistentes e que façam uma verdadeira revolução adaptativa a partir deste grande Início da semana chegando e, apesar de ficar em casa, tenho bastante coisa pra fazer. Até amanhã, querido diário.”

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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