Arrocha esse trem – Dia 7: O Diário da Quarentena

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O diário da quarentena Eduardo Zugaib
Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 7
Querido Diário,
Tudo beleza? Aqui, vamos levando. Levando de todo lado, mas levando. Como disse, iniciamos hoje o projeto de transformação da casa em uma academia, que nos permita fazer alguma atividade física neste período de restrição, já que para nós isso não é luxo, mas necessidade mesmo. Começamos pela parte mais difícil: exercícios aeróbicos, que dependem de espaço. E não é que descobrimos uma pista de corrida circular com 25 metros contínuos dentro de casa? Basta ter olhos de ver. Temos a vantagem de ter um corredor externo, que liga o quintal à garagem, acesso que se dá também por dentro de casa.
Percebemos que mantendo todas as portas abertas, poderíamos dar uma volta completa emendando estes dois trajetos. E assim corremos nossa primeira Mini-Maratona Doméstica, para inveja dos amigos que participam destas provas na rua, exibindo suas roupas de lycra fluorescentes, tênis aerodinâmicos e óculos espelhados. Pena que não podemos recebê-los aqui, pois a orientação é clara e cada vez mais contundente: evitar o contato social. Mas, para matá-los de inveja, fiz como costumam fazer toda manhã de domingo. Fiz check-in na sala de casa e postei uma foto da porta que dá pra cozinha, um dos trechos mais difíceis do circuito. E esfreguei na cara deles as hashtags #TáPago #5k #DentroDeCasa #XôPreguiça#CorridaRaiz e #Superação.
Como não estávamos sendo observados, não me preocupei com o figurino. Tasquei uma meia social preta, um sapatênis, uma bermuda grunge xadrez e a camiseta da última convenção de vendas em que palestrei, antes que tudo parasse. Mas, nem só de aeróbico vive o ser humano. Com a balança do banheiro, estamos anotando o peso de todos os itens da casa para que possam ser usados na musculação. Já sabemos que o gato tem 5 quilos, o sofá da sala 15 e minha filha, 20. Agora vamos projetar os suportes para erguê-los e os construiremos advinha com a ajuda de quem? Sim, ela: a parafusadeira. Como em casa meritocracia é um assunto sério, já tiramos sua foto e colocamos perto da porta da sala, no quadro de Destaque da Semana. Apesar de não ter se manifestado, acho que ela gostou.

Do mundo lá fora, as notícias que chegam não são animadoras. Chegamos no número de 1000 infectados identificados, o que desconsidera a galera com o vírus que, aparentando sintomas ou não, continua circulando por aí espalhando ‘alegria’. A curva de óbitos, apesar de poucos ainda, quando comparada com países em que a tragédia já alcançou números avassaladores, promete fortes emoções nos próximos meses.
Parece que até os mais céticos, aos poucos, começaram a ceder em suas convicções simplistas da ‘gripezinha de nada que só mata velho’, tiraram a cueca do heroísmo de cima da calça da realidade e passaram a analisar com mais atenção a curva que se desenha pela frente e que aponta, como principal ponto frágil, a estrutura do sistema de saúde. Discussões bizantinas sobre se ela é boa ou não, planejada ou não, deixada de lado ou não, é o que menos agrega nessa hora, pois a realidade é uma só: é a estrutura que temos e precisamos, urgentemente, assumir atitudes pequenas e recorrentes, que podem ajudar a achatar a curva da transmissão e onerar menos o sistema de saúde, que já opera no limite.
Sei que você não se liga muito em números, querido Diário. Por isso que você é chamado de Diário e não de Livro de Contabilidade, Livro Caixa ou Extrato de Banco, certo? Vamos lá então, tentar explicar melhor esse trem. Vamos supor que sua família seja composta por 3 pessoas e um gato: você, a Dona Diária, Diário Jr. e Miário, o gato.
Vocês têm uma renda líquida mensal de 3.800,00/mês. Destes, 800,00 são para escola, 1000,00 para plano de saúde, 1000,00 para supermercado, 400,00 para transporte, 500,00 em lazer, 300,00 em pequenas despesas diversas e manutenções. Num mês de ‘normalidade’, sua família chega no dia 30 com um saldo negativo de 200,00 que, empurra daqui, aperta de lá, sempre acaba dando um jeitinho. Gasta menos com um item, no outro empresta uma grana e parcela, diluindo a despesa e fazendo-a caber na renda do mês. Aos trancos e barrancos, vai-se vivendo.
Então, num belo dia, sua campainha toca, você atende e vê 20 familiares distantes descendo de um ônibus com mala, bóia, cachorro e papagaio. Chegam abraçando você, se espalhando pela casa e afirmando estarem muito felizes pois vão passar com vocês os próximos 4 meses, sem qualquer manifestação quanto à despesa que decorrerá disso, o que você vai perceber logo nos primeiros dias. A previsão é de 4 meses, mas podem ser 5. Ou ainda 8, pois eles saíram meio na louca, sem planejamento e não decidiram quanto tempo vão ficar. Sua despesa aumentará, por baixo, umas 6 vezes. Entendeu o colapso previsto na Saúde, amigo Diário? A conta não fecha, véi.
O buraco é grande e, se não começarmos a jogar terra nele já – e já perdemos bastante tempo nisso – os hóspedes vão ficando, ficando, ficando… até a hora em que, com a geladeira vazia, vão acabar assando Miário, seu gato.
Mas, vamos trabalhar com a hipótese de que as pessoas despertem para uma mobilização geral, ajudem os mais vulneráveis e sejam inspiradas por ações de liderança genuínas nos próximos dias.
Assim, acredito que consigamos amortecer a porrada, pois ela será inevitável e vai doer.
Portanto, se eu posso lhe dar um recado hoje, querido Diário, esse recado é: arrocha essa curva, pelo amor do Diário Jr. Até amanhã!”
#diáriodaquarentena#crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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