A parada é obrigatória – Dia 6: O Diário da Quarentena

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O diário da quarentena Eduardo Zugaib
Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 6
Querido Diário,
Vou confessar algo que acho que todos nós estamos sentindo: quarentena é um grande desafio à nossa criatividade. A forma como reagimos a ela varia de pessoa para pessoa. Cheguei a essa conclusão depois que meu amigo se acalmou e parou de se debater, apenas hoje pela manhã. Telefonei para sua família, expliquei a situação e avisei onde ele estava, pedindo que viessem buscá-lo logo cedo, evitando assim maiores transtornos.
Como não sabia se iria surtar novamente, dei um jeito de mantê-lo imobilizado, com o álcool gel e o pano embebido sempre à mão para o caso de qualquer necessidade.
Preparei-o para ir embora, deixando-o todo enrolado em papel filme, com apenas um furo próximo à boca, para poder respirar. Como não tínhamos máscaras sobrando, enrolei um tufo de papel higiênico e enfiei em sua boca. Assim, protegeria-o ao mesmo tempo em que evitaria a gritaria do dia anterior (nota mental: espero que esse papel não faça falta). Combinamos a operação pelo telefone e partimos para a execução. Seus familiares iriam arrumar um carro maior, pois seria preciso ao menos duas pessoas para carregá-lo. Um trabalho que, deixei claro pelo telefone, me isentaria de fazer. Ele ficaria na garagem amarrado, embrulhado em papel filme e com o papel na boca. O portão ficaria apenas encostado, para que entrassem e o carregassem para dentro do carro, sem muito alarde. Quer dizer… acho que foi sem, né? Quando falaram que iriam arrumar um carro, eu pensei que fossem chamar um Uber. Um Corsa Sedan encostaria e tudo estaria resolvido! Mas não! Ao invés disso, a solução que encontraram foi ligar para um primo que trabalhava com leilões e que, semanas antes do decreto de quarentena, havia arrematado um lote de carros velhos da polícia.
Nem quero imaginar o que a vizinhança pensou quando viu aquele camburão preto detonado encostando de ré, duas pessoas abrindo o portão, retirando um corpo enrolado de dentro de casa, colocando-o no carro e desaparecendo em seguida. Pela fresta da porta, de onde acompanhava tudo, só pude ver a velhinha que, da janela do outro lado da rua, benzia-se assustada.
Para amenizar a situação, coloquei-me à sua disposição para realizar compras, buscar remédios ou outra coisa que precisasse. Espero que assim tenha comprado seu silêncio.
Vida que segue.
Quer dizer, vida que tenta seguir. As informações dão conta que os casos de contaminados não param de crescer e entraram na parte da curva em que quase dobram a cada dia. Progressão geométrica, curva exponencial… nunca essas expressões que eram comuns no colégio fizeram tanto sentido. Pena que de um jeito triste e preocupante. Para distrair e matar o tempo, seguimos encontrando atividades dentro de casa. Hoje, por exemplo, montamos robôs com pequenas sucatas encontradas perdidas no quarto dos fundos. Ficaram legais, porém despertaram aquele questionamento proposto por filmes de ficção: será que um dia os robôs iriam nos substituir?
Penso que isso será inevitável, a menos que deixemos de agir como robôs, num automatismo desenfreado e sem qualquer propósito mais profundo, e passemos a agir como humanos novamente, com a consciência de cada passo, sem aquela aceleração insana de correr atrás do próprio rabo, euforia que já deixou muito mais vítimas pelo caminho do que a pandemia. Este talvez seja o maior aprendizado dessas férias forçadas: o de perceber que podemos e reunimos todas as condições para sermos pessoas melhores, conscientes do quanto nos faz falta a presença, a prosa e o abraço de quem nos é caro. Logo, tornou-se urgente romper com aquele imperativo de sucesso tão martelado nos últimos tempos nas redes sociais.
Essa necessidade de ‘parecer ser’, de ‘provar o que não se é’ dos últimos tempos deturpou completamente qualquer sentido de felicidade, esvaziando sua essência e transformando-se numa obrigação cotidiana de publicar stories e posts de sucesso pleno, beleza plena, lazer pleno, corpo pleno, mesmo que distantes da realidade. Sem percebermos, caímos no ridículo de viver a vida olhando-a pela tela da câmera do celular, registrando cada respirar numa espécie de Big Brother particular. E a pergunta que a pandemia nos traz é: pra quê? Pra quê assistir à apresentação de sua filha pela câmera do celular, se você está lá ao vivo? Pra que assistir ao show de sua banda pelo celular, gravando-o às vezes por inteiro, mesmo tendo pago caro para estar ali na pista? A necessidade de postar e parecer ser, ao longo dos últimos dias, vai cedendo a vez para um uso mais ajustado da tecnologia àquilo que nos torna humanos e, justamente por isso, únicos. Lives às 5 da manhã foram substituídas pelas conversas com familiares pela tela ao longo do dia, pelo cuidado e interesse em saber se o outro precisa de nós, porque, lá no nosso íntimo sabemos que precisamos dele. E assim, tudo aquilo que foi criado para nos aproximar tecnologicamente, começa aos poucos a assumir um papel mais verdadeiro em nossas vidas. Hoje, com todos nivelados por baixo pela dura realidade do isolamento, percebemos o quanto a forma como estávamos vivendo já não estava fazendo muito sentido, tamanha fragilidade que demonstramos diante de um problema que não distingue ninguém, e joga essa realidade na nossa cara com toda força quando começam a chegar notícias de que pessoas próximas a nós enfrentam os desafios portarem o vírus.
Mas, como já venho aprendendo nos últimos anos, crises nos depuram. Cabe a nós, sermos inteligentes, e extrair delas as melhores lições.
Bem… agora que já exercitamos bastante a mente e o coração, é hora de cuidar do corpo. Estou analisando a casa inteira e vendo como posso transformá-la em uma… academia! Prevejo que eu e a parafusadeira teremos bastante trabalho amanhã. Bora dormir um pouco mais, já que hoje foram apenas 15 horas de sono.
Bom descando, querido diário. Prometo que amanhã volto menos filosófico e mais mão na massa.”

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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