Um Gel Jitsu matinal – Dia 5: O Diário da Quarentena

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O diário da quarentena Eduardo Zugaib

Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 5

Querido Diário,
Hoje pela manhã quase infartei! Acordei apavorado com a campainha tocando nervosamente, o que me fez pular da cama e ir correndo ver o que se tratava. Era um amigo que não via há tempos, esbaforido, esmurrando o portão e gritando num fôlego só:

– NÃO FIQUEM HISTÉRICOS!!! NÃO FIQUEM HISTÉRICOS, OK?! É IMPORTANTE MANTER A CALMA! SEM PÂNICO, OK?!?! TUDO ESTÁ SOB CONTROLE, MAS MANTENHA A CALMA, PELO AMOR DE DEUS!!!

Corri e vesti minha máscara ninja, minha roupa de apicultor e peguei um pano e um pote de álcool. Afinal, todo cuidado é pouco. Enquanto me vestia, fui ouvindo seus gritos, que pareciam uma bronca, costurando frases quebradas sobre política, teoria da conspiração, papel higiênico, governo, UTI, presidente, máscara, livros… enfim, um emaranhado de coisas que, confesso, me deixou preocupado. Não pelo teor, que até agora não ficou muito claro, mas pelo que os vizinhos poderiam pensar.

Tentei conversar através do portão e ver se estava tudo bem, sem sucesso. Conversar com alguém tendo como obstáculo uma máscara ninja, uma roupa de apicultor e um portão de aço não é um exercício fácil, já que elimina toda possibilidade de comunicação não verbal. Abri a porta e tentei gesticular entre seus gritos, porém cada sinal que fazia dentro daquelas luvas, deixava-o mais nervoso ainda. Não me veio outra coisa à mente: enchi o pano de álcool gel e, assim que ele respirou, dei-lhe um afetuoso abraço, cobrindo sua boca e seu nariz simultaneamente, segurando firme até que desmaiasse, apoiado em mim.

Notei expressões assustadas com a movimentação entre as cortinas da vizinhança. Mantive o abraço, falando altíssimo “Quanto tempo!!!” e dando tapas nas costas do amigo desmaiado, como se estivéssemos matando uma grande saudade. Enquanto arrastava seu corpo pra dentro, acenei aos vizinhos com naturalidade, cumprimentando-os como num domingo qualquer de outono.

Agora estou aqui, com uma pessoa desmaiada na garagem sem saber o que fazer. Enquanto penso, a cada vez que ele esboça acordar, repito a operação enchendo a mão com álcool gel e desmaiando-o em seguida. Fiz isso durante 5 vezes até que… tive uma ideia! Para evitar que ele se debatesse, cortei um tapete em tiras e , com a parafusadeira, fixei-o no chão, imobilizando-o completamente. Fiz uma tira mais reforçada e tapei sua boca, assim não preciso gastar meu álcool gel.

Passado o susto, fui retomar a rotina e confirmei a previsão de ontem: o vírus já fez suas primeiras vítimas fatais em solo nacional, o que é triste demais. Prever isso não se tratava apenas de ser otimista ou pessimista, ter pouca ou muita fé. Era apenas uma projeção do que já aconteceu em outros lugares por onde o furacão já passou, buscando serenidade, senso crítico e evitando o pânico, alertando no que fosse possível, dentro do senso crítico e de fontes confiáveis. Afinal, decisões tomadas com a nosso cérebro reptiliano só nos deixam duas alternativas apenas: bater ou correr.

Eu, particularmente, prefiro bater até que não haja outra alternativa que não seja correr.
Como por exemplo, no início da semana, quando mandamos o chinês de volta pra casa, depois de uma análise bastante crítica e uma mobilização intensa! Tô falando do Big Brother, ok? Não do vírus. Este ainda vai levar um tempo e, pelo visto, ainda vai nos trazer bastante dor de cabeça, além de tosse e insuficiências respiratórias de toda ordem.

Torço, querido diário, para que tenhamos ânimo e boa vontade acima de tudo, inclusive para compreender os diferentes olhares. A hora é de união e foco no coletivo, não de passar pano. Pensando bem, é hora de passar pano sim! Com álcool, e em todas as maçanetas das portas, superfícies metálicas, carrinhos de supermercado, máquinas de cartão de crédito e outros objetos que sejam utilizados por muita gente. Assim seguimos, dia após dia.

Bem… preciso parar de escrever para decidir agora o que vou fazer com meu amigo, antes que ele seja dado como desaparecido. É isso, querido diário. Beijo e, qualquer coisa, me liga”

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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