Recorde undial de compras em apneia – Dia 4: O Diário da Quarentena

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O diário da quarentena Eduardo Zugaib

Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 4

Querido Diário,

Ficar em casa durante muito tempo nos faz descobrir detalhes que passavam despercebidos nos dias que vivemos até antes disso tudo começar. Por exemplo: descobri quantos parafusos existem em casa, considerando móveis, eletrodomésticos, tvs, geladeira, carro, entre outras maravilhas modernas. Ao todo, são 12.750, os quais foram devidamente catalogados, revisados e reapertados com a parafusadeira. Gostaria de poder usá-la para apertar alguns parafusos soltos de algumas cabeças por aí que, mesmo sendo inteligentes e podendo acessar informações concretas sobre a complexidade do problema do ponto de vista sanitário, insistem em simplificar o assunto, invocando outras mazelas. Tipo assim: se eu não tô nem aí pra dengue, por que vou me preocupar com isso? A razão é simples: para que a gente continue vivo, com o direito de sofrer apenas com a dengue, o sarampo e outras questões até mesmo com mais empatia, engajamento e consciência do quanto somos vulneráveis. O buraco dessa vez é maior, mais profundo e não está nem aí se você é contra ou a favor do governo ou qualquer outro assunto que nossa mente confusa tente jogar no bolo.

Sabe quando chega o Dia das Mães e, assim que começam a surgir postagens de mães e filhos, aparecem algumas pessoas azedando a timeline dizedo “Ain! Quero ver respeitar mãe o ano todo! Hipocrisia ficar postando foto aí no dia delas!”, medindo o mundo todo pela própria régua? Pois é. Tenho uma ligeira impressão que sejam as mesmas. Mas… cada quê no seu cada qual, como diria aquele filósofo que não me lembro o nome.

Seguimos acompanhando as teorias da conspiração, antes que enfrentemos o surto de constirpação. Algumas são bastante geniosas, dignas de roteiro para a Netflix. Por isso que a busca pela informação na fonte correta deveria ser considerada questão de saúde pública, no caso a mental. Afinal, onde falta informação, sobra espaço para a imaginação. E em tempos caóticos, imaginar desconectado da realidade pode se tornar um exercício perigoso, que deveria estar circunscrito aos estúdios de cinema e editoras de ficção.

Ao final do dia, precisei ir ao supermercado. Foi minha primeira saída desde o início e foi inevitável notar uma certa tensão no ar. Um misto de angústia, otimismo, cautela, pensamento positivo, medo, enfim, uma mistura de sensações. Assim que desci do carro percebi que muitas pessoas já usavam máscaras, o que me deu uma certa sensação de vulnerabilidade. E se eu respirasse ali dentro e contraísse o vírus? Então, ainda no estacionamento, visualizei mentalmente o que precisaria comprar. Tracei a rota mentalmente, prendi a respiração, armei o cronômetro e fui. 6 minutos, 32 segundos e 18 centésimos depois eu já estava no caixa com todos os itens da lista, alguns supérfluos, cara roxa, olhos esbugalhados e cartão na mão. Notando minha aparência ‘diferente’, o rapaz perguntou se eu estava bem. Apontei os sacos de compras e pedi um, que me foi passado correndo. Notei uma certa celeuma em volta, pessoas se afastando, o caixa se benzendo, segurança levantando a cabeça lá longe, tudo em câmera lenta ao menos visto pelos meus olhos esbugalhados. Tão logo peguei o saco, cobri a boca e o nariz com ele e:

– AAARRAHHHHHFFFF… SSSSHUUUUMMM…. – enchi o saco e o esvaziei em seguida, numa só respirada…
– UFAAAAAAAAA!!!… – o povo suspirou aliviado.

Preocupado, o caixa perguntou:
– Tu…tudo bem, senhor?
Com cara de quem não se abalou nem um pouco, respondi sem deixar escapar nenhum centímetro cúbico de ar dos pulmões:
– Nu grédido, bur vavor.
Sobrevivemos a mais um dia. Mas a atenção continua. Pela curva, devemos ter notícias indesejadas em breve.

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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