Roberto Carlos, Anitta ou Dorimê? Eis a questão – Dia 3: O Diário da Quarentena

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Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 3

Querido Diário,

Estou desconfiado que descobri o significado de quarentena. No nosso isolamento voluntário – já que não queremos ser irresponsáveis com nossos familiares, especialmente os idosos – nestes primeiros dias percebi que estou comendo 4 vezes mais. Multiplicado por 10 dias, isso dá 40, que é provavelmente o quanto engordaremos se não fecharmos a boca. Se durar mais tempo, ferrou.

Apesar da recomendação de cientistas, médicos, sistemas integrados de saúde e todos os demais envolvidos na linha de frente da pandemia, muita gente ainda prefere ouvir a opinião inflamada do padeiro da esquina, naturalmente estimulada pela queda vertiginosa na clientela. Compreendo suas razões pelo lado que lhe atinge diretamente, afinal também sou um profissional que, tão logo o problema começou a se alastrar ainda na Ásia, já começou a sentir por aqui os efeitos. Mas, porém, todavia, entretanto e no entanto, compreendo também que quando a biologia e seus vírus resolvem dar as mãos para a matemática e suas progressões geométricas, a coisa fica um pouco mais séria do que as ideologias gostariam de supor. Direita e esquerda nessa hora apenas servem para identificar por qual narina você vai contrair o vírus.

Viu só? Lembro quando na escola eu perguntava para os professores: – Por quê tenho que aprender matemática e biologia se nunca usarei isso? É… acho que chegou enfim a hora de usar. E saber isso pode poupar a gente de grandes dores de cabeça, algumas irreversíveis, com perdas irreparáveis.

Portanto, a palavra de ordem é: se não dá pra gente achatar a curva da nossa barriga nestes dias de isolamento, vamos achatar a curva do contágio como pudermos, começando pela exponencialidade que existe em nossa própria família. Sem histeria. Apenas lucidez, consciência, fé e ciência.

Hoje vi no Facebook um grupo que foi organizado em Portugal, que traz apoio mútuo, conversas, trocas e… música! Sim! Eles que estão vivendo o isolamento pleno, encontraram uma forma de manter o humanismo, abusando das redes sociais para se auto apoiarem, enquanto atravessam o pico do surto. Em determinados horários do dia, eles cantam a música que foi escolhida pelo grupo para aquela noite e percebem, pelas vozes que vem de outras casas, que não estão sozinhos nessa e que todo mundo indistintamente terá que fazer algum sacrifício. Achei a ideia genial, porém a nossa polarização talvez não permita. Ficaríamos horas brigando e ofendendo para decidir se naquela noite iríamos cantar Roberto Carlos, Ultraje a Rigor, Hino Nacional, Zeca Pagodinho, Anitta ou Dorimê. Que tenhamos sabedoria e lucidez, acima de qualquer coisa e aceitar que, num baile, não importa a música que toca, mas sim o quanto sabemos nos divertir.

Ah! Entre as notícias boas, essa se destaca: fiz as pazes com a parafusadeira! Construí um suporte para o travesseiro, que agora fica colado ao meu peito. Quando vou espirrar, basta enfiar a cara ali e mandar ver. Incomoda um pouco na hora de comer, mas talvez ajude a achatar a curva. A da barriga, não a do contágio.

Como minha filha não está indo na ginástica, arrastamos os móveis da sala e fizemos uma pista. A meta é, até o fim da quarentena, realizar uma apresentação com 3 plot-twist, 2 duplos carpados, 5 espacates aéreos e 2 mortais triplos ao som de Soy Latinoamericano. Nada muito profissional, apenas para passar o tempo. Descobri que a melhor maneira de usar o Spotify é pesquisando pelo nome de uma música que você gosta. Joguei “My Way”, do Frank Sinatra, e cheguei em versões do mundo todo, incluindo em mandarim, punjabi, árabe e azeri. Se você não sabe onde se fala o idioma azeri, eu digo: no Azerbaijão. Sim, aquele mesmo país onde o presidente apertou a tecla f* e saiu abraçando o povo, mesmo com todo aviso dado pelas organizações de saúde e por aqueles por onde a tempestade já passou com mais força. O problema é que o aviso chegou através da mídia, que também promoveu uma grande festa por lá. E aí fica aquela competição pra medir quem vai ser o super herói que vai tirar a cueca de cima da calça primeiro. Ainda bem que isso só rola no Azerbaijão. Nem quero imaginar se aqui fosse assim. É, amigo diário, como diria o ‘velho deitado’… rapadura é doce, mas não é mole. Se cuide e até amanhã.

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada

(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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