É hora de investir em papéis – Dia 1: O Diário da Quarentena

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Crônicas para o autoconhecimento em momentos de crise – Dia 1

Querido Diário…

Enfim, cá estamos! Depois de pegar todas as notícias que lemos – fakes, pseudo-científicas, oficiais – botar no liquidificador, bater e coar, chegamos à conclusão que seria prudente ficar mais em casa do que sair nos próximos dias. Matematicamente falando, o coronavírus deve ganhar progressão geométrica por estes dias. Quem diz isso não é apenas o Ministro ou o Governador: basta um simples olhar para a curva já desenhada em outros países.
Para não entrar em histeria, nos antecipamos. Foi uma espécie de pré-histeria planejada. Fomos ao mercado antes de todo mundo e compramos mantimentos, bebidas, uma parafusadeira e papel higiênico. Muito papel higiênico.

Acho que até hoje, aos 46 anos, nunca usei tanto papel higiênico quanto o que compramos. Pelo que observo, papel higiênico deve ser o único produto que vai subir na Bolsa nos próximos dias. Portanto, a dica é clara: Invista em papéis. Preferencialmente os higiênicos. Pode ser daí que vai sair o seu primeiro milhão, tão logo essa crise passe. Fretei um carreto para trazer o papel até em casa, paguei o motorista, dei-lhe um abraço de Dráuzio Varella e, assim que entrei, tomei um banho de álcool gel.

Seguimos acompanhando os boletins. Na verdade, seguimos muito mais os memes, bem mais interessantes. Não precisei cancelar nenhum compromisso, pois quase todos já foram cancelados. Adoro quando sou poupado de dar a notícia ruim.

Aproveitei para desmontar e limpar quadros que, depois de muitos dias chuvosos, acabaram embolorando. Usei a parafusadeira, que parcelei em 12 vezes. Depois de destruir algumas coisas, incluindo alguns dedos, enfim descobri como ela funciona.

No Spotify descobrimos uma playlist de músicas modernas para casamento, com hits bacanas. Ouvimos 8 vezes (ou seriam 9?), pois são músicas que trazem uma positividade e um otimismo bacanas, os mesmos que você encontra só nas cerimônias e festas de casamento, ao menos antes do buffet expulsar os convidados.

Preparamos uma macarronada. O molho, modéstia à parte, ficou muito bom. Abrimos um vinho e celebramos. Como o vinho era ruim, deu dor de cabeça. Tomei um analgésico e sofri quieto, pois dor de cabeça é um dos sintomas e não quero causar pânico.

Criança em casa é um desafio à parte: já brincamos de rabiscar a parede com giz, de campeonato de bambolê com efeito especial de áudio de torcida, que achei também no Spotify. Optei por baixar o volume para que não imaginassem que estamos realizando um evento com centenas de pessoas no quintal. A recomendação é clara: evite aglomerações. Também brincamos de Polly, enchemos a bola de basquete e realizamos uma sessão de cinema no Netflix durante tarde.

Estou preocupado com minha rinite, pois meu medo é espirrar alto demais e ser denunciado como possível caso suspeito. Vou deixar um travesseiro por perto, só para abafar o som. Seguimos, como se nada estivesse acontecendo. Porém tudo dentro de casa. Olha… até que fomos bem! Até amanhã, querido diário.

#diáriodaquarentena #crônicas de #umapandemiaanunciada
(Atenção: isso é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Foto: Patrícia Rosa)

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